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Por Brasil de Fato     |     19.01.2019 - 09H56
Mais Marias, menos Arrascaeta

 

Mais Marias, menos Arrascaeta

Nome feminino tem sido usado de maneira pejorativa e misógina

Gladstone Leonel Júnior

Belo Horizonte

, 18 de Janeiro de 2019 às 17:17

Interessa falar do povo, das pessoas que constroem o dia a dia do futebol / Cruzeiro / Divulgação

- Vai aprender a torcer, seu Maria!

Exclama o torcedor adversário com um tom de deboche, ao se referir a um cruzeirense, mesmo que seja outro homem. Esse tipo de escárnio tornou-se comum nos últimos anos. Mas, de onde vem essa denominação genérica feminina usada por alguém, nesse caso, como um xingamento?

Existem algumas formas de compreender as razões da utilização desse nome próprio. A primeira delas consiste na própria grafia das pichações da Torcida Organizada do Cruzeiro, Máfia Azul, que estão espalhadas pela capital e pelo estado de Minas Gerais. Uma das formas mais comuns de descaracterizar as pichações, por parte das torcidas organizadas adversárias, é sobrepor à pichação a letra “F” transformando-a em “R”, e o termo Máfia se alteraria para Maria. De fato, isso é muito corriqueiro nos centros urbanos, onde a cultura da pichação é forte e a identidade futebolística também.

Mas é perceptível que o nome “Maria” para se referir aos cruzeirenses não parte simplesmente de uma ação de pichadores, mas de algo mais intrincado que o próprio futebol na cultura popular brasileira: a misoginia. Essa palavra feia tem um significado mais perverso que a sua estética, pois significa desprezo, aversão às mulheres. Toda vez que o nome “Maria” é usado dessa forma, ele vem com uma carga de preconceito e frustração, próprios do nosso tempo. Um termo usado por homens contra homens, instrumentalizando as mulheres.

Nessa situação, o nome não surge necessariamente em tom homofóbico, mas, sem sombra de dúvidas, misógino, visto que a mensagem passada é de que o cruzeirense, a partir do momento em que opta por torcer para o Cruzeiro, o faz porque não entende de futebol. No senso comum desses torcedores, por não entenderem de futebol, são equiparados às mulheres, as quais não entenderiam de futebol, que “é” um “esporte de homem”. A denominação naturaliza algo construído na sociedade, o distanciamento da mulher, não só do mundo do futebol, mas do espaço público.

Ao preconceito soma-se à frustração. Houve um vertiginoso aumento de torcedores do Cruzeiro nas últimas décadas e, consequentemente, de torcedoras. Assim, com maior número de torcedores e torcedoras, os títulos também aumentaram e o Cruzeiro, nos dias de hoje, detêm uma quantidade de torcedores/as e de títulos relevantes superior ao seu maior rival. Não por acaso, os xingamentos às “Marias” cresceram nos últimos anos.

Não resta dúvidas de que a torcida do Cruzeiro, como parte dessa mesma sociedade patriarcal e machista, age também com um grau de misoginia considerável frente aos seus rivais. Para construir uma cultura de tolerância, inclusão e respeito, é fundamental a pró-atividade da torcida e do clube. Urge ampliar os espaços de participação das mulheres no futebol, seja na composição da diretoria do clube, no Conselho, no apoio às torcedoras e, principalmente, na formação das categorias de base e profissionais de equipes femininas.

Algumas ações de visibilidade já foram feitas por algumas diretorias do clube, como a associação dos números das camisas dos jogadores aos índices de violência contra as mulheres, no dia internacional das mulheres em março de 2017 em um jogo da Copa do Brasil contra o Murici-AL, mas isso ainda é muito pouco pelo potencial de um clube de massa.

Como podem perceber, o título provocativo desse artigo diz algo a respeito dele, pois o que menos falamos aqui foi sobre Arrascaeta. Ele tornou-se menor dentro da nossa história. Deixamos que a Fox Sport, dentre outras, babem até cansar de falar dele, pois nos interessa falar do nosso povo, que constrói o dia a dia do Cruzeiro.

Quis o destino, em razão dos seus adversários e não do próprio clube, que o Cruzeiro tivesse a oportunidade de ser a vanguarda para avançar nessa temática em respeito, sobretudo, às suas torcedoras e à nova geração de torcedores/as.

O Cruzeiro não deverá ser só das Marias, deverá ser do clube da esquina, dos Miltons e Venturinis, mas também das Ana Claras, das Helenas, das Salomés, das Sofias e das Izabelas. Haverá um dia que ainda nos orgulharemos de entoar no Mineirão as canções feitas pelos nossos e pelas nossas, que nos caracterizam como mineiros/as, cruzeirenses, e contribuem para essa identidade que construímos: “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”.  


Edição: Wallace Oliveira